Ulteriormente

S

I

L

Ê

N

C

I

O

Anúncios

Concha

A trilha onde estavam mostrava o beira-mar de forma privilegiada. O sol havia saído a pouco, e o céu nublado mudava sua forma para nuvens pomposas e um vento quente. O som das ondas quebrando e do pipilar das gaivotas tornava aquele momento ainda mais caro. Em seu coração ele sabia o quanto desejou em poder estar ali do seu lado. O sonho de lhe mostrar aquele recorte do planeta Terra, e toda a calmaria e possibilidade que acompanhavam aquela cidade.

Seu coração sabia que ali repousava um momento especial. Ele sentia nos batimentos acelerados dentro de seu peito. Não havia como regressar sem lhe dizer o que sentia. Não fora assim que havia planejado, mas conforme Venturini havia cantado: “foi assim, como ver o mar.”

E então ele se confessou. Olhando em seus olhos pediu-lhe a honra de sua companhia eterna e lhe entregou seu amor, e em suas mãos macias depositou uma concha para que fosse prova física daquele instante. Aquela concha iria guardar não somente os sons do oceano, mas também o som de um coração imutável e infindo apaixonado por aquele homem.

 

P

A

U

S

A

 

 

expectação.

 

 

 

Jornada de dedos estrelaçados

Lembro-me da última vez que estávamos lá.

O som da sua voz, doce e suave, contando-me sobre os anos que não estive ao seu lado.

A estrada tem esse dom. Ou talvez ele se sinta mais confortável em abrir-se nesse local onde, em meio a tantos, há somente nós. Digo isso porque o vejo. Sempre o vi. A forma como seus olhos vasculham o ambiente. Curiosos e brilhantes e tímidos e cheios de vida. Foram esses olhos que vi pela primeira vez.

Nessa noite, mesmo com a ausência da luz, seus olhos podiam ser avistados por milhas. A maneira com a qual ele me introduzia em sua adolescência e infância, e me guiava por entre cada acontecimento, faziam minha alma leve e mais apaixonada. E ao mesmo tempo sentia a tristeza de não tê-lo acompanhado por cada uma de suas vivências, e segurado suas mãos, da mesma forma com a qual eu repousava as nossas em sua perna esquerda.

Houve também a inveja do Tempo, e de cada indivíduo que teve o privilégio de experienciar esses segundos ao seu lado.

A forma com a qual ele foi me apresentando o Universo fora tão vívida e profundamente magnífica.

Cada aspecto, cada instante, toda a forma… tudo er

                                                 amor.

 

 

 

Anjo bom

Era amarelo. Forte e vibrante. O vento fazia com que a chama dançasse de forma a criar novas formas. A fumaça perfumada subia ao céu, e o verde das plantas criavam o altar.

A Mãe entoava o canto, tão doce e melancólico, que acalentava e adentrava o mais profundo da alma.

O seu vestido branco se mexia, e seus colares lhe acompanha. A força dos mares, a força da terra. A natureza ali presente. Os espíritos dos Pretos Velhos.

Tão linda noite. Tão lindo momento.

O clarão banhando a todos ali, de luz. Uma estranh[

 a paz.

Parede

Nenhum cômodo da casa lhe é acolhe-dor.

Perambula pelo corre-dor, quintal, e volta-se para o mesmo ponto.

Deslocado. In-completo. Perdido.

Um ponto. Um espectro na imensa vida. E qual lhe é a função, e seu sentido?

.

Silêncio.

Meninas da cidade cantam sobre

É pungente essa solidão que me cerca. Cada pôr do sol é um lembrete. Eagles também deixa o recado no som estéreo, e como dói.

Um dia desses assistia a uma reportagem na televisão, o programa, que busca pessoas aleatórias em seus embarques e desembarques no principal aeroporto do país, entrevistava um casal. O homem contou que esperava seu irmão que vinha da Austrália para o enterro da mãe. Ele descreveu de forma emotiva a convivência com ela, e como havia sido estranho naquela mesma manhã tomar café. Disse ele que todas as manhãs ele e sua mãe compartilhavam aquele momento. Um café e um diálogo.

Esse voyeurismo levou-me a uma realidade que me cerca: o medo de perder minha mãe. E não digo somente no sentido fatal, mas de perder esses momentos. Esses pequenos momentos que criam memórias.

A solidão que me acompanha, com esse medo de perder alguém tão importante, tem resultado em comportamentos reclusos, marginalizados e obscuros – algumas vezes -. Fico impotente diante do agora e do amanhã, e sei que não deveria. Mas tudo o que eu desejo é guardar esse tempo, esse laço que tenho com minha mãe, em um local seguro de qualquer ameaça, e poder viver da forma pura e bela, assim como aquele homem tinha com sua mãe dividindo um café pela manhã. Não estou pronto para um adeus. Nem mesmo que seja um adeus de quilômetros.

Fechei os olhos.

Mesmo com o mormaço lá fora, dentro de mim eu conseguia sentir o vento gélido e ouvir o som das ondas quebrando.

Aquele desejo que eu sempre tive, tão vívido em minha infância. O sentimento de não pertencimento, agora entendido. Demorou anos. Vinte e quatro, para ser mais específico. Mas ali estava eu. Inteiro.

Tão fácil. Tão difícil.

Tão leve. Tão pesado.

Escolhas. Decisões.

Na vida há sempre o A e o B. Isso não é fácil para mim. Tomar essas decisões. Parece que sempre deixei algo muito importante de lado. Sempre tive medo de uma decisão ser errônea, e eventualmente perder oportunidades. Resultado: perdi muitas oportunidades.

Talvez quando eu abrir os olhos eu tenha mais forças. Talvez agora que algo está mais claro – e específico -, eu tenha mais coragem. Talvez essa seja a solução. Encontrar a coragem. Ou deixar de lado o medo de viver. De qualquer forma, começarei por tomar uma decisão. E bá, eu acho que sei muito bem qual vai ser ela.


Leo. O dono dos pensamentos aqui depositados.

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 10 outros seguidores

outubro 2017
D S T Q Q S S
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Blog Stats

  • 10,770 hits