Anjo bom

Era amarelo. Forte e vibrante. O vento fazia com que a chama dançasse de forma a criar novas formas. A fumaça perfumada subia ao céu, e o verde das plantas criavam o altar.

A Mãe entoava o canto, tão doce e melancólico, que acalentava e adentrava o mais profundo da alma.

O seu vestido branco se mexia, e seus colares lhe acompanha. A força dos mares, a força da terra. A natureza ali presente. Os espíritos dos Pretos Velhos.

Tão linda noite. Tão lindo momento.

O clarão banhando a todos ali, de luz. Uma estranh[

 a paz.

Parede

Nenhum cômodo da casa lhe é acolhe-dor.

Perambula pelo corre-dor, quintal, e volta-se para o mesmo ponto.

Deslocado. In-completo. Perdido.

Um ponto. Um espectro na imensa vida. E qual lhe é a função, e seu sentido?

.

Silêncio.

Meninas da cidade cantam sobre

É pungente essa solidão que me cerca. Cada pôr do sol é um lembrete. Eagles também deixa o recado no som estéreo, e como dói.

Um dia desses assistia a uma reportagem na televisão, o programa, que busca pessoas aleatórias em seus embarques e desembarques no principal aeroporto do país, entrevistava um casal. O homem contou que esperava seu irmão que vinha da Austrália para o enterro da mãe. Ele descreveu de forma emotiva a convivência com ela, e como havia sido estranho naquela mesma manhã tomar café. Disse ele que todas as manhãs ele e sua mãe compartilhavam aquele momento. Um café e um diálogo.

Esse voyeurismo levou-me a uma realidade que me cerca: o medo de perder minha mãe. E não digo somente no sentido fatal, mas de perder esses momentos. Esses pequenos momentos que criam memórias.

A solidão que me acompanha, com esse medo de perder alguém tão importante, tem resultado em comportamentos reclusos, marginalizados e obscuros – algumas vezes -. Fico impotente diante do agora e do amanhã, e sei que não deveria. Mas tudo o que eu desejo é guardar esse tempo, esse laço que tenho com minha mãe, em um local seguro de qualquer ameaça, e poder viver da forma pura e bela, assim como aquele homem tinha com sua mãe dividindo um café pela manhã. Não estou pronto para um adeus. Nem mesmo que seja um adeus de quilômetros.

Fechei os olhos.

Mesmo com o mormaço lá fora, dentro de mim eu conseguia sentir o vento gélido e ouvir o som das ondas quebrando.

Aquele desejo que eu sempre tive, tão vívido em minha infância. O sentimento de não pertencimento, agora entendido. Demorou anos. Vinte e quatro, para ser mais específico. Mas ali estava eu. Inteiro.

Tão fácil. Tão difícil.

Tão leve. Tão pesado.

Escolhas. Decisões.

Na vida há sempre o A e o B. Isso não é fácil para mim. Tomar essas decisões. Parece que sempre deixei algo muito importante de lado. Sempre tive medo de uma decisão ser errônea, e eventualmente perder oportunidades. Resultado: perdi muitas oportunidades.

Talvez quando eu abrir os olhos eu tenha mais forças. Talvez agora que algo está mais claro – e específico -, eu tenha mais coragem. Talvez essa seja a solução. Encontrar a coragem. Ou deixar de lado o medo de viver. De qualquer forma, começarei por tomar uma decisão. E bá, eu acho que sei muito bem qual vai ser ela.

Algumas horas depois do encontro

 M A N H Ã

Era o dia perfeito para o final de novembro. Chovia e a temperatura estava amena.

A noite de sono havia sido boa, não fosse por um pequeno deslize durante a madrugada, resultando em um encontro de seu nariz com a parede.

Seria uma boa sexta-feira, pensou ele enquanto olhava para o céu.

 T A R D E

A chuva havia dado uma trégua para o sol, e o céu exibia cores tristes amareladas. As árvores ainda com as remanescentes gotas, e o som dos carros em movimento. Ele olhou para esse cenário. Havia algumas pessoas andando na mesma calçada em que ali se encontrava, mas elas continuavam absortas em seu mundo.

Passado alguns minutos, se encontrou com seus pais, e juntos compartilharam um almoço, não tão delicioso, em um tampouco lugar prazeroso. Despediram-se. Sua mãe continuou fazendo-lhe companhia. Foram para um passeio. Os dois, à sós, como nos velhos tempos, de circulares suburbanas durante o período chuvoso.

O ambiente dessa vez era outro. A tranquilidade de um veículo. O conforto de bancos de couro. O som estéreo tocando música que conforta.

Chegaram em seu destino, os dois, com euforia, e nostalgia. O veículo fora estacionado, e subiram a escada rolante. A música natalina já podia ser ouvida ao fundo, e pessoas apressadas andavam pelos corredores. Logo, os dois se juntaram a essas pessoas, e então eram pertencentes ao mundo.

A cafeteria da sereia de duas caldas se apresentou logo para os dois, que adentraram ao som de Nina Simone, e lá ele o viu, com seu chá gelado, de polo amarela, e seu mesmo olhar. Esse olhar que o encarou por quatro segundos, e depois encontrou no chão o seu refúgio, até que se retirasse do local.

Ele olhou para sua mãe, e com palavras sem nexo, desculpou-se para sentar-se. Sua mente não lhe obedecia, nem seu corpo.

N O I T E

Ele estava deitado, e a claridade do céu cinza lameado o deixou nauseado. Fechou a janela.

O silêncio da casa só para si o deixava mais confuso. Mais atormentado por seus pensamentos.

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Salve sua alma

Mesmo que tudo esteja quebrando,

salve sua alma.

E nas noites solitárias de sábado,

salve sua alma.

Nos momentos em que o amor parece impossível,

salve sua alma.

Durante o choro,

salve sua a

l

m

a

o baixo então vai começar seu longo solo

e você vai entender,

que a vida é como uma onda, e que então

você deve se entregar como o mar.

 

E depois dessa conversa, eles nunca mais iriam se encontrar,

apenas a memória daquele tempo paradisíaco iria permanecer.

 

Salve sua alma,

para esses lembranç

[as memórias nunca não se vão.

 

O que tenho

Acordes de um violão

ou seria uma guitarra

talvez

os dois juntos

ecoavam na minha sala

e tão logo, em minha mente

e conforme as notas se apresentavam

nada mais ali estava

exceto um cachorro

e três gatos

mais um coração apaixonado.

 

 


Leo. O dono dos pensamentos aqui depositados.

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